sábado, 10 de julho de 2010

Corredor de Domingo no Correr por Prazer

No Passado dia 6 o corredor de Domingo, foi dado a conhecer aos muitos seguidores do site Correr por Prazer. Foi com muito orgulho que aceitei o convite do Vitor Dias para dar a conhecer o "Corredor de Domingo", na sua rubrica de nome blogosfera Corredora. Para de algum modo imortalizar o momento no meu Blog, perdoem-me a repetição a quem já leu, mas fica aqui o texto na integra.

Corredor de Domingo


Autor: Vitor Dias  Categoria: Blogosfera Corredora

Antes de mais, o meu sincero agradecimento ao Vitor Dias, pelo convite para apresentar o meu blog à blogoesfera corredora, através do seu ilustre site, que é uma referência no mundo bloguista nacional e internacional.

O meu nome é Filipe Fidalgo, tenho 29 anos, sou casado e pai de um menino e para breve também de uma menina. Resido na cidade de Amora, margem sul do Tejo, e fiz da corrida o meu passatempo, mas também a voz da minha revolta perante uma lesão arreliadora que me afastou do desporto. Hoje a corrida é a minha tábua de salvação, mas também a minha linha orientadora para fazer do ano dos 30, um ano marcante.

O Corredor de Domingo é um filho recente na blogosfera corredora, diria até que ainda vai nos primeiros passos. Nasceu no primeiro dia de Abril, como se fosse mentira, e dois dias depois tinha o primeiro post. O nome nasceu por coincidência lógica com o dia em que corria todas as semanas, e ao mesmo tempo homenageando todos aqueles anónimos que fazem do domingo o seu dia de corrida.

O Corredor de Domingo, começou por ser o local ideal para a descrição das minhas peripécias corredoras, bem como a porta de entrada para o desconhecido Mundo dos atletas de pelotão. O Mundo daqueles que ninguém ouve falar, mas que é através deles que os eventos se tornam grandes e a corrida salta todas as fronteiras, tornando-se numa linguagem universal.

Ao fim de apenas três meses, tornou-se não só local de partilha de experiências, mas também de ponto de encontro de vários amigos e atletas de pelotão. A todos eles o meu muito obrigado e sejam sempre bem-vindos ao Corredor de Domingo.


Corram por Prazer, mesmo que não seja ao Domingo.


Filipe Fidalgo

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Entre o treino e o Rio.

Com o aproximar do Verão aumentam os corredores de Domingo, aqueles que querem perder os kilos a mais para caber no fato de banho e fazer figura à beira mar. Tenho pena que não saibam o que é ser um verdadeiro corredor de Domingo, que corre todo o ano faça chuva ou faça sol, apenas porque isso lhe dá prazer.

Todos passamos semanas embrenhados em trabalho, ansiosos por chegar a casa e sermos acolhidos efusivamente pela nossa família, que depois muito nos custa “abandonar” para saciar aquele bichinho que se chama corrida, e que nos corre nas veias, todos os dias das nossas vidas. Esta semana, mudei, aproveitei o sol de final do dia e deixei de ser apenas corredor de domingo. Dois dias, dois treinos, mais de trinta km´s e mais de 2 horas longe da família. Mas compensou pois além de treinar fui recebido efusivamente 2 vezes por dia.

19:30 de quinta-feira, 1 de Julho. Calcei os ténis e fui ver o rio. Saí de casa a precisar de algo, procurei em mim, e sem saber o que precisava, apenas corri. Corri até à Amora, passo a passo, sem obrigações de tempo. Cheguei ao rio e olhei, o espelho de água chamava por mim, fiz figura de forte e contornei. A maré cheia reflectia do outro lado a Arrentela, banhada por aquele sol de final de dia, que nos limpa a Alma e nos aquece ainda mais o corpo que já vai quente da corrida. Absorvendo os km´s continuei, percorrendo sozinho, um percurso cheio de gente, que ora andando ora correndo, partilhavam algo que não era seu, aquele passeio á beira-rio. Cheguei ao Seixal. A estrada cortada mas ainda vazia, tornava-se ideal para correr antes que a romaria às festas inundasse as ruas de um mar de gente. Ali já não havia passeio á beira-rio, apenas estrada, apenas eu e a estrada. Desliguei-me de tudo o que me envolvia. A corrida absorvera os meus sentidos, em cada passada, ouvia apenas a melodia que o meu corpo ritmado criava. Sem dar conta do tempo nem do espaço, acordei sobressaltado pelos muitos e eufóricos benfiquistas que saudavam os seus heróis à porta do centro de estágio. Retornei, percorrendo os mesmos caminhos, agora mais rápido, para também eu ser saudado, mas agora na minha chegada a casa.

19:30 de sexta-feira, 2 de Julho. Depois de ontem, voltei a percorrer o mesmo, as saudades da Baía, as saudades de partilhar o passeio que é de todos, aquele espelho de água, tudo isso me fez voltar. Sair da Amora, saudar a Arrentela e abraçar o Seixal, tudo isso na mesma corrida, é divinal. Já o regresso não foi só o rio, não foi só o passeio e aqueles que o partilham a me acompanhar. O som prévio ao concerto de Jorge Palma embrenhava-se na corrida com os acordes gastos e melodiosos de tantos versos e canções. Enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar… É a frase que retive, depois de tirar a mão do queixo e de não pensar mais nisso. Acabei por deixar-me rir. Estava de novo na minha Amora, naquele cantinho à beira-rio, onde as casas baixinhas e as gentes de outrora nos fazem sentir em casa. Nada melhor para terminar mais um treino e mais uma semana.


quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Treino de Domingo...

8h da manhã de Domingo, o restaurante “ O Barbas”, servia de ponto de partida, não para uma corrida, mas para um treino que se avizinhava duro, muito duro.

O Sol ainda meio envergonhado pela hora da manhã, deixava o vento arrefecer o dia, criando por vezes um ar desagradável para uma manhã de domingo. Olhei em redor, estava na hora. Um beijo aos meus amores, mais um nó nos ténis, óculos na cara, chapéu na cabeça e mochila às costas. Lembrei-me que parecia mais turista que corredor, mas tudo era necessário, tudo fazia sentido, o objectivo esse estava a aproximadamente a 30 km de distância. O paredão da costa era a parte mais fácil, depois vieram as primeiras areias, ainda óptimas para correr. A maré nesta altura ainda dava tréguas acenando lenta e descontraidamente a sua presença, absorvendo subtilmente as pegadas deixadas para trás, e apagando o trilho que poderia servir de guia ao retorno. Era uma ida sem certeza de volta, uma “caminhada” contra o sol, a água e a areia, fugindo da sombra, mas sem ambições de enganar o objectivo. Os primeiros km´s voaram rápido, talvez rápido demais. Até à Fonte da Telha, o mar tinha sido benevolente, corria nessa altura sozinho, embrenhado em pensamentos fúteis e absurdos, acenando aqui e ali a desconhecidos companheiros, gente incógnita, sem nome, mas ao mesmo tempo amiga, furto de rápidos encontros e desencontros no mundo da corrida. Depois da Fonte da Telha, fui apanhado pelo TGV (Antunes, Batista e João Abrantes), malta de outros campeonatos, de outros andamentos, carinhosamente apelidados assim pelo amigo Luís Parro, dada a impressionante rapidez com que deslizam pelas areias da Praia. A companhia foi curta mas agradável, meia dúzia troca de palavras, e a certeza que aqueles homens, são malta dura de roer. Fiquei lentamente para trás, não porque o ritmo fosse rápido (que ideia!) mas sim para ter a certeza que faziam batota. Sim, porque os meus pés enterravam-se na areia e os deles a correr mesmo à minha frente nem lhe tocavam. Só pode ser batota, porque correr sem pôr os pés no chão, meus amigos, é batota, só pode (espero que a malta do TGV não me leve a mal porque são atletas verdadeiramente fantásticos)! Continuando. A maré começara agora a carregar, impedindo-me por vezes de correr. De um lado a areia solta do curto areal, do outro, o mar que deixara os suaves acenos dos primeiros km´s, para agora se revoltar contra a costa, empurrando, batendo, gritando, revolta pelo espaço que queria seu. O areal sem resposta, mantinha-se impávido, sereno mas intransigente no seu território. Nesta altura corria sozinho, nesse campo de batalha entre a terra e o mar. Os pés enterrando-se na areia, o sol a queimar a cara. Era como um perdido em terra de ninguém, observado pelas inúmeras gaivotas surpreendidas pela minha presença subtilmente acompanha por outras tantas pulgas da areia que faziam de batedores, saltando alegremente à frente das minhas passadas. Perto do km quinze eis que vejo finamente caras conhecidas, o Vitor Veloso e o António Almeida, vinham de regresso da Lagoa de Albufeira acompanhados pelo Rogério. Não pensei duas vezes, voltei imediatamente para trás, para na companhia destes dois grandes atletas e amigos, palmilhar as mesmas areias de volta à Fonte da Telha. A companhia destes companheiros ofuscou o cansaço e animou a corrida. As passadas ritmadas, os batimentos cardíacos, a respiração ofegante, o bater das ondas, as gaivotas e o mar, serviam de sinfonia à manhã de domingo. Chegava novamente à Fonte da Telha, um abraço aos amigos, um até já, e passava agora à estrada, faltavam 10 km´s para chegar a casa. Subia lenta e vagarosamente a interminável rampa de acesso à praia, quando as pernas começaram a vacilar. Mais um golo de água, um gel e uma barra, mas as pernas já não respondiam da mesma maneira. Passei a Aroeira, lentamente, arrastando o corpo dorido e uma sombra cansada . As pernas doíam e os pés gemiam, cada passada tornara-se numa angustiante dor, que me massacrava a mente e derrubava o corpo. Corri mais 4 km, ignorando umas vezes as dores, outras vezes superando-as. Mas ao chegar à Verdizela uma lacerante dor nos músculos lombares, derrubou-me. Não caí, mas gritei. Gritei interiormente, de dor, de revolta, mas também por ter a certeza que acabara ali, a 5 km´s de casa o treino duro, muito duro de Domingo.