segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

GP do Atlântico

Mais um fim de semana, mais uma prova.  Desta vez na Costa da Caparica, no Grande Prémio do Atlântico.
Não tenho treinado muito, apenas e só o mínimo indispensável para poder pensar em participar em algumas provas de distâncias mais pequenas. Mas mesmo assim, ambicionava de algum modo aproximar-me da barreira dos 40min, coisa que só por uma vez superei. Com forte apoio do clã cá de casa, e com a companhia do Luis Carapeto, pelo menos para o tiro de partida, as hipóteses não eram más, dado que o fantástico tempo primaveril em Fevereiro dava uma ajuda, contrariamente ao ano passado.
Na zona de partida, uma combinação de última hora. Eu e o companheiro Carlos Cerqueira iriamos juntos para fazer os tais 40min. Partida dada e lá fugimos eu e o Carlos do desamparado Luis Carapeto, ainda sem pernas para loucuras abaixo dos 4min\km. Até aos 4 minutos, foi um passeio fugaz pelas ruas da Costa, serpenteando e ultrapassando todos aqueles que nos iam aparecendo á frente. Mas pouco antes dos 5Km, o Cerqueira, dá um esticão e não fui capaz de seguir no seu encalço. Começava nesta altura a sentir algumas dores no ombro direito, que me incomodavam o suficiente para não me esquecer que estavam lá.  No controlo dos 5km, 20min13seg. apesar das dores a coisa não ia mal. Mas o maldito km 5 foi devastador, subitamente a dor agravou-se de tal modo que fiquei com o braço completamente dormente.  Nesta altura juntava o apreensivo ao dorido e quanto mais tentava manter a passada para me manter no grupo que seguia, mais me sentia debilitado, até que ao km 7, resignei-me. Não valia a pena continuar a exigir aquilo que o corpo não era capaz de dar. Nesta altura chega perto de mim o António Massano, mais um companheiro que bem me ajudou naqueles km até á meta.  As dores no ombro tinham irradiado para as costas, o braço direito continuava dormente, e cada momento de inspiração  mais profunda era agora um tormento. Aos 9.5Km disse ao Massano pela última vez, que não se prende-se por mim, foi nessa altura que o vi arrancar e eu sem reacção, senti-me parado. Arrastei-me para a meta, sempre a correr mas com o sofrimento a marcar cada passada, vi a família e sorri. Sorri para mascarar a dor, mas ao mesmo tempo por ver chegado o fim daqueles dolorosos últimos km´s. O relógio marcava 42m52s, mesmo assim menos 6seg que no ano anterior.
Agora a frio sei que tenho de redefinir o plano de treinos, porque senão algum dia ficarei pelo caminho e não verei a palavra META. Não me parece que seja um cenário agradável, pois muitas vezes sofri, mas nunca desisti.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

1º Corta Mato do Núcleo de Naturais e Amigos da Vila de Cabeço de Vide

Voltei! A preguiça fez correr tempo e a falta dele fez com que o mesmo voa-se e o meu blogue perdido a aguardar vontade de escrever. Não escrevia aqui desde o dia 8Novembro, não por falta de assunto, mas por preguiça ou quiçá por aquela velha desculpa esfarrapada da falta de tempo. Fui à (Meia) maratona de Lisboa e nada escrevi, depois a são silvestre e o ano acabou sem palavras escritas. Veio a o 2ºSuper Trail dos APP e nada, nem uma palavra, sobre o mais espectacular evento pirata a sul do Tejo. Até que parei, pensei e talvez porque pouco treinei, corri ao domingo, desta vez na estreia do corta Mato dos amigos da vila de cabeço de vide.



Depois de uma meia manhã com os meus filhos no parque, desci a rua para voltar aos corta-matos. Talvez uns 13 ou 14 anos depois do último onde curiosamente tinha alcançado o meu mais alto resultado neste desporto. Mas as saudades foram ficando, aumentando e desta vez não consegui adiar mais. Uma prova pequena cheia de craques, um trançado louco e fantástico, e uma mão cheia de amigos para partilhar o momento só podiam dar em mais uma prova para guardar na memória. cheguei quando parecia tarde e afinal ainda era cedo, dando tempo para recordar amizades de outros tempos, pois malta do costume estava lá, sempre disponível para mais um abraço e dois dedos de conversa. O João Benevente, um verdadeiro Rolling Stone nestas andanças deixa qualquer um bem disposto, o amigo Carlos Cerqueira sempre presente com a corda toda e depois os mais chegados, o Pedro “3 Pontos” Ferreira, O “primo” Veloso e o Luis “terra do Carrapau” Carapeto. A malta é assim, ou vai a tralha toda ou não vai ninguém. Poucos minutos antes da partida, a motivação que faltava, o meu filhote saltava alegre com um cartaz “ força pai” e a minha filhota ao colo da mãe gritava bem alto por mim. Ainda agora não consigo perceber, se foi a letra ainda um pouco atabalhoada do meu filho naquele cartaz se foi o sorriso de ambos, que me fez tremer as pernas. Mal recuperado destas emoções e já estava dado o “apito” de partida. Sim leram bem, o apito de partida. Invulgar mas bastante original. Já nem lembrava de como se corre um corta mato, mas lá me deixei ir na minha ousada estratégia, a primeira volta para reconhecimento ao percurso e depois era pé no prego que a família estava à espera. Na última semana os treinos tinham saído pela janela mas nem isso me tirava a alegria de ali estar, de novo a correr na relva, na terra, no areal. A subir, a descer, a curvar para aqui e depois para ali. Nem importou se eram muitos ou poucos, apenas interessava correr, recordar, apreciar a corrida e recolher em cada passagem pela meta mais uma enorme ovação dos meus filhotes. No meio de tanta nostalgia mal tive tempo para apreciar, mas matei as saudades dos velhos tempos. Os 5km ficaram pelos 20min e qualquer coisa segundos. Resultado modesto mas com uma enorme recompensa de ter os meus filhos e aminha mulher ali a meu lado.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

8ºMaratona do Porto

Tinha prometido a mim próprio que voltaria. Tinha de voltar. Àquela cidade que quase me tinha derrotado no ano anterior. Sofrera mas tinha escrito na História da minha vida que naquele local me tornara Maratonista.
Sábado de manhã e despedia-me da família entre beijos de saudade e ternura. No vão da escada as saudades já apertavam, mas o pensamento estava no Porto, na linha de partida para a minha segunda Maratona. A história repetia-se, tal como hà um ano atrás, as mesmas despedidas, os mesmos dois autocarros carregados de sonhos, ambições, vontades, crenças e ilusões.  Cabia a cada de um nós escrever a sua própria história, correr a sua própria corrida, percorrendo os caminhos e ruas da cidade do Porto em busca da tão ambicionada meta. Acabar a Maratona. Para alguns a ambicionada estreia, que tal como eu tinha sentido hà um ano atrás,  preenchia-lhes a mente com ambições e receios. Para outros um simples regresso para voltar a testar o corpo e a mente na mítica distância da maratona, como guerreiros que voltam ao campo de batalha na esperança de se tornarem imortais, no tempo e na História.
Neste dia correr no Porto torna-se algo divinal. Ao tiro de partida, tudo se esquece, tudo se torna periférico. Apenas ficamos nós. O corpo e alma unem-se numa simbiose quase perfeita, distraída apenas pelos sons revoltos do atlântico ou pelo melodioso e sereno Douro. Por volta dos 10km´s, o primeiro choque. Mais de metade dos protagonistas desaparece, ficamos apenas nós: maratonistas e candidatos a tal. A Maratona começa aqui, neste ponto já não há retorno, temos de seguir. A foz acolhe-nos, abençoa-nos e deixa-nos prosseguir. O seu vento agora brando, apenas nos empurra suavemente como uma mão que embala o berço. Na ribeira o Douro canta e encanta os corajosos, os devotos na crença, os corredores e a sua corrida e guia-nos até à ponte D Luis. É aqui, que temos a certeza que fazemos parte da cidade, do rio, enquanto atravessamos aquele Douro envolvidos na magistral armadura de ferro e sentimos que Gaia nos acolhe nas suas velhas calçadas, de paralelipedos escuros e tortos a enquadrar as caves e os barcos rabelos. Até à afurada é um pulo, ou apenas meia dúzia de passadas corridas. O suor frio que me corre na testa acorda-me de um sonambulismo, de um sonho. 1h37m Abro talvez ligeiramente os olhos e sei que vou a meio, enquanto o  Sol morno daquela fria manhã Portuense, não me deixa acordar definitivamente. Aquece-me o rosto e o outrora suor frio já não existe.
Os olhos novamente semicerrados, querem que volte a deixar-me ir. Anseio embalar novamente, no Douro, na calçada escura e voltar adormecer o corpo e mente na corrida. A armadura de ferro está ali repetidamente, respiro fundo e atravesso a ponte pela última vez , rio acima em direcção a um ponto até agora vazio e perdido num além que não vislumbro. O Freixo faz-me sombra, volto a sentir o frio, está na hora de voltar, não ao principio mas ao fim. Aos 30km´s estou sozinho, mas mesmo adormecido e envolto no embalo do Douro, descubro que as minhas passadas sabem o caminho. Respiro então calmamente, sei que vou chegar, sei que a barreira é mítica mas talvez imaginária, se aparecer enfrento-a como outrora fiz. O corpo ainda não chegou, mas a mente diz-me que sim, agora sei que vou chegar. Vislumbro-a momentaneamente e recordo outros tempos, noutra passagem e outras dores. Sinto que me tornei mais forte, e a prova disso é que aquele mar de gente me aplaude a mim e aos outros que ali chegaram. Sentem a dívida para connosco por corrermos na sua cidade, mas também nós os maratonistas estaremos sempre gratos por aqueles inesqueciveis momentos das nossas vidas.

3h14m44s (-26mins  que em 2010!!!!), Obrigado Porto! Por me deixares adormecer a vaguear nas tuas ruas e ruelas, por me embalares na tua foz e por me deixares ouvir o teu melodioso Douro. Tal como no passado sei que um dia voltarei para te saudar, mas agora o coração apertado nas saudades e na ternura leva-me de novo a casa para junto dos meus que de olhos fechados, não sentem o meu beijo. O meu corpo agora dorido implora finalmente por clemência, deito-me suavemente e fecho também eu os olhos para reviver mais um dia na pele de um maratonista.