quinta-feira, 3 de março de 2011

Corrida da Árvore 2011

Por tradição o domingo é o dia da família, mas curiosamente também é dia de provas, por isso nada melhor que levar a família à corrida. Pela primeira vez, lá estiveram os meus 2 filhotes e a minha mulher, juntos a ver-me partir e a sorrir por me ver chegar à Meta.

Sem grandes ambições para esta prova, e com a equipa novamente desfalcada, eu e o Vitor Veloso lá teríamos de fazer pela vida de modo a honrar o nome Tandur. Estávamos com uma preparação digna de corredor de sofá, o Vitor a recuperar de uma lesão e eu sem treinar praticamente há 2 semanas. Tudo nos levava a crer que iria ser uma manhã difícil, mesmo que a prova fosse sempre a descer.
Chegámos sem tempo nem pressa, mas mesmo assim ainda deu para um abraço ao Luis Parro e à Fernanda, que tal como nós tinham trocado o Sicó pela corrida da árvore. Os dados fornecidos pela organização eram impressionantes, 1200 participantes inscritos quando no ano passado apenas tinham terminado cerca de 600. Equipar à pressa, aquecimento rápido, beijos à família e estava dado o tiro de partida. A multidão começava a rolar e a serpentear pelas estradas de Monsanto, o Pulmão de Lisboa. Os primeiros metros eram adequados à preparação que levávamos, descidas suaves e não muito rápidas devido ao compacto pelotão. Perto do 1km, a primeira dificuldade, uma subida íngreme que parecia nunca mais terminar. Mesmo assim eu e o Vitor lá fomos serpenteando, e ultrapassando alguns corredores mais lentos. Não é que a nossa velocidade fosse muita, mas nesta altura as pernas davam para a aventura. Perto do 2km, senti que ia rápido, rápido demais para aquilo que tinha imaginado para esta prova. Olhei para trás e vi o Vitor uns 10 metros atrás. Chamei por ele, que rapidamente se colou no meu encalço. Mas algo não estava bem. Continuamos naquele louco carrocel de subidas e descidas constantes, num ritmo rápido, sem preocupações dos treinos em falta ou lá o que fosse. Perto do 4km apercebo-me que o Vitor não estava por perto, levava cerca de 20metros de atraso. Abrandei e gritei-lhe novamente. O meu amigo estava em dificuldades. Incentivei, marquei o ritmo, mas o Tandur Veloso estava num mau momento. Vendi-lhe um cubo de marmelada por mais um km no meu encalço até ao abastecimento aos 5km. É certo que ele bem me tentou demover, mas era impossível. Chegado o abastecimento, era tempo das verificações técnicas. Consultei o garmin e hidratei-me o suficiente, sentia-me bem e as pernas estavam a responder melhor do que pensava. Antes dos 6km uma descida longa, onde aproveitei para embalar e ganhar algum tempo perdido nas subidas anteriores, com isso perdi o contacto com o Vitor. O pior da prova chegava agora aos 7,5km, pois dali até ao fim era sempre a subir, com inclinações por vezes na ordem dos 5%.
Nesta altura, eu e outro corredor que desconheço o nome, íamos praticamente no mesmo andamento, numa passada rápida e forte para enfrentar as subidas. Foi nesse andamento que cortei a meta com 43m40s e abracei o meu filhote, eufórico por me ver chegar.


Estava feita a minha primeira corrida da árvore. Corrida que considero difícil, pelas constantes subidas e descidas e que com os treinos que não tenho feito, a tornaram muito mais complicada. Mas a paisagem é verdadeiramente magnifica, e correr neste enorme pulmão da cidade de Lisboa é magistral, calcorreando aquelas estradas serpenteantes pelo meio do denso arvoredo, saboreando o espaço envolvente e respirando o ar mais puro da cidade.


Mesmo assim, os Tandur honraram o nome com duas classificações dentro dos 100 primeiros atletas num conjunto de 1023 que chegaram à meta.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

XII Grande Prémio do Atlântico 2011

Levantar cedo para apanhar frio, Correr à chuva, ser baleado por grãos de areia e ser varrido por vento forte. Não é de maneira nenhuma a melhor manhã de domingo. Mas se juntarmos a isto tudo uma prova de atletismo, perto de casa, com muitos companheiros. Então sim, a manhã de domingo valeu a pena.

Costa da Caparica, 9 e picos da manhã. A dupla Tandur presente em território português chegava com pouca vontade de enfrentar aquele mau tempo, desconhecendo o que ainda estava para vir. O companheiro António Almeida tinha escolhido outras paragens e preparava-se por esta altura para fazer um enorme brilharete na Maratona de Sevilha, a ele os meus muitos parabéns.

A chuva, o frio e o vento ainda ligeiros marcavam a entrega dos dorsais e as pequenas conversas de circunstância para passar o tempo até à partida. Entre trocas de palavras encontrámos o amigo Mário Lima também com pouca vontade de apanhar uma molha, mas agora que já ali estávamos era melhor equipar e dar uma corrida. Tempo ainda antes da partida de rever o Carlos Sequeira e a família Benavente. Ficou por encontrar o amigo Coutinho, dado como desaparecido no meio dos 1500 atletas inscritos à partida. Já equipados e apanhar frio fomos informados que este ano a partida tinha mudado de local, 400 metros ali para o canto. Grande erro da organização. Colocar 1500 atletas num canto de uma curva, não é boa ideia, mas mesmo assim ainda deu para ver o Fábio Dias que generosamente tirou a foto da praxe (Obrigado, companheiro). Mesmo no meio da ordem desordeira que ali se sentia, lá se deu o tiro de partida para que a malta corresse em vez de protestar.


Eu e o Vitor Veloso (Foto de Fábio Pio Dias)

A chuva e o vento forte mesmo sem dorsal, marcavam também presença, sem saber estava a começar a prova com piores condições climatéricas que já corri na vida e acreditem que praticamente em 20 anos de vários desportos federados nunca tinha vivido nada assim. Os primeiros km´s foram feitos aos ziguezagues, passando atletas desconhecidos e saudando os conhecidos ultrapassados. Perto do 2km, o vento começava a ficar mais forte, a chuva acompanhava o vento enquanto eu e o Vítor lá continuávamos a forçar o andamento. Até à Trafaria, perto dos 4 km´s, fomos passando as dificuldades com algum esforço mas acelerando o ritmo, sem saber o que estava para vir. Aos 5km o Vítor começava a sentir dores mais fortes no tornozelo. Gritei-lhe várias vezes para que não ficasse para trás, só gritando conseguíamos falar um com outro por causa do vento e da chuva forte. O pelotão alongava-se agora pela estrada, massacrado pela chuva, mas combatendo o vento. Virámos a caminho do pontão. Passada forte, com convicção, ligeiramente curvados para enganar o vento, mas alinhados e ordeiros como um batalhão invencível a caminho de mais uma batalha. Última curva e damos de cara com o Adamastor, era ali o nosso cabo das tormentas. Fomos literalmente atirados contra os restaurantes, a chuva massacrava, o vento, agora lateral era fortíssimo, a água do mar assaltava o pontão, enquanto a areia da praia nos crivava o corpo. Corria agora inclinado para a minha direita, sentindo a areia a varrer-me o corpo, mal abrindo a boca para respirar. Deixei de ouvir. O meu ouvido direito estava cheio de areia. De olhos semiabertos ia tentado ver o caminho. Sentia-me encurralado pelo mar forte e traiçoeiro a ditar as suas leis contra o imponente pontão. A chuva forte encorajada pelo vento municiado pelo areal tentava levar vencido aquele pelotão de gente audaz. A meio do pontão o atleta à minha frente quase cai e para, gritei-lhe força. Arrependi-me no mesmo momento em que abri a boca para falar. Ele não me ouviu e eu tive direito ao abastecimento “ de areia”. Cerrei os dentes e pensei que a mim o Barrabás não me deitava abaixo. Acreditem ou não, mas acelerarei. Sair do Pontão foi como um respirar de alívio dorido e sofrido. Faltava agora um km para o fim. Quando vi a placa dos 9Km, lembrei-me do amigo Jorge Branco, e recitei na minha mente, uma frase que me fez todo o sentido “É na busca mágica do último quilómetro que todos nós corremos“. Por entre pensamentos, a meta estava a vista, e mesmo com todo aquele mau tempo, acabava com 42m58s, um resultado menos mau tendo em conta os poucos treinos que tenho realizado e pelo simples facto de esta ter sido a minha primeira prova em 2011.


Depois desta loucura, nem imaginam como foi divertido chegar a casa e levar um raspanete do meu filhote, dizendo com ar muito sério que quanto está a chover não se pode ir correr para a praia e que ainda por cima estava a sujar a casa toda de areia, à mãe. Enfim!


Agora só para nós, desta vez o puto tinha razão.

domingo, 9 de janeiro de 2011

1ºSuper Trail Pirata

Ano Novo, Vida Nova! É algo que todos pensam, mas poucos se atrevem a cumprir. Sair da nossa zona de conforto e arriscar. Sair da rotina e abraçar o desconhecido que nos aventuramos para mais tarde recordar. Para começar o ano, fiz algo diferente. Não foi uma prova, não foi um treino. Foi apenas e só um encontro entre amigos, companheiros e ilustres desconhecidos em torno de algo que nos une, a corrida.

Na última sexta-feira, correu-se o 1ºSuper Trail Pirata dos Amigos do Parque da Paz. Por mais que o nome esclareça, e por mais palavras que o descreva, apenas a vivência nos conseguirá recordar um momento único de corrida. Depois de um dia chuvoso, de mais um dia de trabalho, de mais uma semana cumprida. Parei! Quebrei a rotina e ás 22h estava equipado e de ténis calçados para o 1ºSuper Trail Pirata.


Era um mar de piratas, reza a história que eram 100, mas o número real nunca se soube. Invadiram a cidade de Almada, pela calada da noite com a passada galopante a gritar revolta num terreno que não é seu. Partiram do Parque da Paz os 100 valorosos, calcorreando as calçadas da Cova da Piedade, conquistando ruas e rotundas de território outrora automobilístico. Depois de invadir a Piedade, subiram em direcção a Almada, Tomando de assalto ruas de um empedrado esquecido e poucas vezes sentido por baixo de carros rotineiros. Nem o Metro resistiu à elegância da passada e ao valoroso grupo de guerreiros, fazendo soar a sua campainha quando rendido. Do Mercado até a Cacilhas, era tempo de deixar correr, poupar as forças para contornar o Farol ouvindo o gritar rouco e gasto de um cacilheiro atordoado pelas ondas do Tejo. Seguiu-se o Passeio do Ginjal, cheio de buracos e recantos perdidos num tempo que já não é o seu. Os obstáculos caiam mas os valorosos Piratas guerreiros continuavam, Conquistando. Passaram o Atira-te ao Rio, mas não cumpriram a placa, saudaram o elevador e subiram. Subiram, o Olho de Boi sem mostrar fraqueza, pois faltava conquistar o Rei. Galopantes e insaciáveis, conquistaram ruas e ruelas, subidas e descidas, gentes intrigadas e surpreendidas. De sorriso nos lábios, o povo estava rendido e estupefacto, pela valentia e ousadia. Sem demora, abraçaram o Rei. Que de costas voltadas, se rendia sem ser capaz de olhar nos olhos os 100 valorosos Piratas. Estava feita História. Depois das conquistas era tempo do regresso dos valorosos, ao seu mundo, ao seu Parque envolto em Paz. Os 100 correram de volta iluminando a escuridão, saudando a sua terra e a natureza que os envolvia. Contam os livros e as lendas dos históricos piratas, que Almada nunca mais foi, nem nunca mais será a mesma, pela maneira como ficou rendida a tamanha valentia.

Os Tandur Piratas ( António Almeida, Filipe Fidalgo, Vitor Veloso), Mário Lima e José Carlos "Capitão Gancho" Melo.


A todos estes Piratas de quem reza a história, Um grande abraço e até às próximas conquistas.