Manhã de sábado, e eis que os raidistas se fazem às areias da Costa. A praia quase deserta, fazia jus à hora em que os aventureiros se preparavam para um treino longo, muito longo, no vasto areal da Costa Azul. Partimos 7 com vontade de chegar longe, passo a passo: eu, o Vitor Veloso, o Luís Parro, o Mário Lima, o Rogério e outros dois companheiros que não consegui fixar o nome. Ritmo lento para aquecer, e a conversa ainda vasta sempre em torno da UMA, da Almonda e de todas as provas de trilhos e aventuras mais recentes.
(fotos gentilmente cedidas pelo Vitor Veloso)
O grupo mantinha-se unido numa passada calma, fintando aqui e ali as investidas da água que tentava teimosamente molhar-nos os pés. Deixávamos para trás o último pontão, o último porto seguro, passamos a Mata, a Rainha e num pulo estávamos na Fonte da Telha. 8 Km’s feitos, num areal até ali fácil e com poucos banhistas. Aos 10 Km´s o Mário sentia dificuldades, uma antiga lesão que também tinha vindo treinar, e sensatamente decidiu voltar antes que o problema se agravasse, um treino é um treino, mas a UMA fala mais alto. Estávamos a chegar à parte mais difícil, da Fonte da Telha para a frente o areal fica mais solto, as ondas chegam mesmo acima de quem corre, criando dificuldades e obrigando a um serpentear constante, duna acima, duna abaixo. Apesar das dificuldades o Vitor e eu tentámos manter o ritmo forte, ouvimos o Luís Parro despedir-se, estava na hora de também ele voltar. As dificuldades aumentavam, o calor também, éramos só dois contra a Mãe Natureza. As gaivotas arbitravam o duelo, mas nós continuávamos numa passada forte, aproveitando o vai e vem das ondas para tentar correr na área mais compacta, mas logo de seguida tínhamos de fazer um sprint para a duna pois o mar não nos deixava ocupar um espaço que considerava seu. Perto dos 14 Km’s numa tentativa de fugir de uma onda, enterrei o pé na areia e o meu malogrado joelho esquerdo cedeu. Uma dor lancinante obrigou-me a abrandar, deixei o Vitor continuar e fui ficando calmamente para trás. Mas a vontade de chegar à Lagoa de Albufeira era mais forte, passada lenta mas continuei, agora com mais cuidado, correndo na areia solta para evitar as mudanças bruscas de direcção por causa das ondas. Cheguei finalmente à Lagoa, o Vitor já se preparava para voltar. Tirámos a foto para registar o momento, e voltámos os dois.

(fotos gentilmente cedidas pelo Vitor Veloso)
Tentei, mas o joelho não deixava, o Vitor está muito forte, acredito plenamente que vai fazer uma grande UMA, perguntou-me se estava bem se queria que abrandasse, recusei. Não podia deixar que o meu problema prejudica-se um amigo no seu treino e nos seus objectivos. Era agora uma luta minha até à Costa da Caparica, faltavam “apenas” 15Km´s. Continuei, agora sozinho, vendo o meu amigo Vitor afastar-se, aceitando as dores do meu joelho, mas recusando parar. Estava na altura de me colocar à prova a mim, a minha vontade, e o meu espírito superar o corpo, recusar uma limitação e fazer das tripas coração, como diz a sapiência popular. Foram 4 Km´s, com o corpo a pedir clemência, mas cada vez que o garmin apitava por mais um Km cumprido, renascia a vontade de continuar, de me superar. A maré agora mais baixa, dava tréguas, a arriba fóssil imponente, marcava a paisagem, as gaivotas esvoaçavam por ali, e eu só pensava em chegar, de preferência inteiro. Começava agora a ganhar a luta com o meu corpo, aumentei a passada, e depois um pouco mais, estava a superar a maleita, passei a Fonte da Telha praticamente com 3 horas de treino, e continuei, a Caparica é já ali. O vento aparecia agora de frente, dificultando a passada, serpenteava, não por causa das ondas mas pelos inúmeros banhistas que aquela hora já enchiam as praias, felizmente o piso agora estava melhor, bem melhor. A história invertia-se primeiro a Fonte da Telha, depois a Rainha, a Mata e já se avistava o pontão da Costa, estava mesmo a chegar. Entrei no último Km, um apito do garmin e uma voz que me chamava, pensei por um súbito momento que estava a delirar, o garmin a falar. Mas não, era o Vitor, foi bom ver um bom amigo à chegada. Estavam feitos 30Km em 3H39m, nos areais da Costa Azul. Passei muitas dificuldades, muitas adversidades, consegui superar-me, mas o melhor foi mesmo correr com aqueles raidistas, conhecer pessoalmente o Mário Lima e o Luís Parro e palmilhar as areias com alguns dos muitos “Duros” que no dia 1 vão enfrentar a UMA. A todos eles envio as mais sinceras palavras de Força e persistência para superar tão grande prova, pois a UMA é só uma e bravos muitos serão.