Com o aproximar do Verão aumentam os corredores de Domingo, aqueles que querem perder os kilos a mais para caber no fato de banho e fazer figura à beira mar. Tenho pena que não saibam o que é ser um verdadeiro corredor de Domingo, que corre todo o ano faça chuva ou faça sol, apenas porque isso lhe dá prazer.
Todos passamos semanas embrenhados em trabalho, ansiosos por chegar a casa e sermos acolhidos efusivamente pela nossa família, que depois muito nos custa “abandonar” para saciar aquele bichinho que se chama corrida, e que nos corre nas veias, todos os dias das nossas vidas. Esta semana, mudei, aproveitei o sol de final do dia e deixei de ser apenas corredor de domingo. Dois dias, dois treinos, mais de trinta km´s e mais de 2 horas longe da família. Mas compensou pois além de treinar fui recebido efusivamente 2 vezes por dia.
19:30 de quinta-feira, 1 de Julho. Calcei os ténis e fui ver o rio. Saí de casa a precisar de algo, procurei em mim, e sem saber o que precisava, apenas corri. Corri até à Amora, passo a passo, sem obrigações de tempo. Cheguei ao rio e olhei, o espelho de água chamava por mim, fiz figura de forte e contornei. A maré cheia reflectia do outro lado a Arrentela, banhada por aquele sol de final de dia, que nos limpa a Alma e nos aquece ainda mais o corpo que já vai quente da corrida. Absorvendo os km´s continuei, percorrendo sozinho, um percurso cheio de gente, que ora andando ora correndo, partilhavam algo que não era seu, aquele passeio á beira-rio. Cheguei ao Seixal. A estrada cortada mas ainda vazia, tornava-se ideal para correr antes que a romaria às festas inundasse as ruas de um mar de gente. Ali já não havia passeio á beira-rio, apenas estrada, apenas eu e a estrada. Desliguei-me de tudo o que me envolvia. A corrida absorvera os meus sentidos, em cada passada, ouvia apenas a melodia que o meu corpo ritmado criava. Sem dar conta do tempo nem do espaço, acordei sobressaltado pelos muitos e eufóricos benfiquistas que saudavam os seus heróis à porta do centro de estágio. Retornei, percorrendo os mesmos caminhos, agora mais rápido, para também eu ser saudado, mas agora na minha chegada a casa.
19:30 de sexta-feira, 2 de Julho. Depois de ontem, voltei a percorrer o mesmo, as saudades da Baía, as saudades de partilhar o passeio que é de todos, aquele espelho de água, tudo isso me fez voltar. Sair da Amora, saudar a Arrentela e abraçar o Seixal, tudo isso na mesma corrida, é divinal. Já o regresso não foi só o rio, não foi só o passeio e aqueles que o partilham a me acompanhar. O som prévio ao concerto de Jorge Palma embrenhava-se na corrida com os acordes gastos e melodiosos de tantos versos e canções. Enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar… É a frase que retive, depois de tirar a mão do queixo e de não pensar mais nisso. Acabei por deixar-me rir. Estava de novo na minha Amora, naquele cantinho à beira-rio, onde as casas baixinhas e as gentes de outrora nos fazem sentir em casa. Nada melhor para terminar mais um treino e mais uma semana.